Outro dia ouvi de alguém que havia me tornado um chato.
A bem da verdade, caro leitor, ouvi de “alguéns”.
O fatídico dia chegou: aquele adolescente descolado que transitava nas madrugadas entre points de rock’n roll com as pálpebras pintadas de preto, brincos nas orelhas, e uma vasta cabeleira cacheada presa por uma bandana maneira tornara-se um… chato.
O rótulo em si não diz muita coisa, e é daquelas expressões com múltiplos significados: será que sou desinteressante? Será que sou incômodo? Será que o carisma natural do qual sempre me orgulhei foi definitivamente tragado pelas demandas da rotina diária? Será que chegou o dia em que não sou mais capaz de acompanhar a novidade dos modismos internéticos e midiáticos? Não sei, nem sei se saberei.
Por alguma razão, entretanto, intuo que os chatos compartilham de um traço comum e que constitui a sua marca no mundo: a insociabilidade. Será que os chatos se relacionam bem entre si? Será que os chatos são chatos com outros chatos? Será que o mundo está dividido entre duas classes muito bem definidas, de chatos e não-chatos, que lutam há séculos pela sua hegemonia? Mas então seriam os chatos oprimidos ou opressores? Não sei. Já disse que não sei.
O fato é que a sentença foi declarada: minha cabeça foi posta na guilhotina e fui considerado culpado de chatice, embora ainda não saiba se dolosa ou culposa. Disseram que tal qual um apóstolo do primeiro século, fui batizado nas águas da normatividade, renascendo para a vida eterna como um… chato.
Quem são, entretanto, estes meus acusadores? E aqui, como um advogado de série americana, em uma virada histórica nesta trama, peço a você leitor, que olhe para os que me acusam, sentados ali, na frente do júri. Está vendo? Aqueles sentados bem ali.
Não tem nenhum Mick Jaegger, não é?
Nenhum Andy Wharol, nenhuma Rita Lee…

Não sei se o leitor concorda, mas parece que aqueles que acusam a chatice no outro consideram-se, logo de partida, pessoas muito legais e interessantes, não é? Mas o fato é que não o são, e provavelmente, jamais serão. A maior parte da vida adulta, é rotina: trabalho, estudo, academia, cervejinha, trabalho, estudo, academia, cervejinha, cervejinha, cervejinha, cervejinha, trabalho, estudo, … e só. Não há nada no cotidiano que possa tornar alguém tão interessante a ponto de não ser também meio chato. Todos temos nossas neuroses, fixações, manias, entre outras pequenas impertinências, e isso é OK.
Para a maioria das pessoas, o que resta, então, é consumir os produtos de mídia que mostrarão outras possibilidades de existência para além do cotidiano: filmes, séries e realities nos quais poderão vivenciar novas experiências projetando-se fantasiosamente nos personagens. Todo mundo conhece alguém que chama a mocinha do filme de burra quando ela não foge do assassino, ou que detalha as estratégias que adotaria caso estivesse participando de algum reality show. Isso também é OK.
Mas de repente, o legal se torna falar disso, e só disso: do próximo buzz. Sinto que de algum modo, esse império do que é comum é profundamente prejudicial para a sociabilidade, na medida em que não há espaço para compartilhar subjetividades na relação com o outro, senão a mediada pelos produtos da mídia de massa. Os chatos são, então, queles que têm outros interesses, e que os compartilham com paixão.
E como a chatice é um esporte popular, deixo aqui a minha modalidade favorita, a que pratico de maneira mais consistente: falar o tempo todo sobre assuntos que considero merecedores da minha atenção, como política, economia, religião, ciência e artes. Me sinto incapaz de conversar amenidades com pessoas de maior intimidade, e apenas com elas.
Desde muito jovem reconheço como minhas melhores características uma curiosidade voraz e um imenso prazer pelo estudo e pela fruição estética. Dediquei uma boa parte do meu tempo ao estudo da religião, da filosofia, da história, das ciências sociais, e mais recentemente da psicanálise. Procurei também refinar o meu gosto artístico praticando um ecletismo radical. Sério, minhas playlists no Spotify variam de música folclórica latino-americana, passando por pop português da década de 70, cantos sufis, ópera, samba, funk, e o que mais você imaginar. Por prazer. Puro e simples prazer.

Também tenho uma alegria imensa em conversar e compartilhar minhas descobertas com outras pessoas, mas também em ouvir e aprender, principalmente de quem sabe mais do eu. O que tenho sentido, é que as oportunidades para uma conversa franca e profunda, onde há verdadeira troca de experiências e conhecimento têm se tornado cada vez mais raras. E olha que sou plenamente capaz de participar de um diálogo onde se trocam apenas amenidades, embora sinta que isso não produz conexão humana real, e por isso mesmo, não me satisfaz.
A marca de minha chatice salta então aos olhos: minha insociabilidade reside no fato de que a busca por conexão é minha motivação para entrar em um diálogo. Na altura em que me encontro dessa via Dutra que é a vida, não me sinto mais disposto a falsear uma suposta sociabilidade para não ser considerado chato por alguém. Por ser a vida curta demais para se limitar pelo julgamento alheio, minha chatice fala sobre a escolha inexorável e voluntária de dedicar-me ao que preenche minha existência de sentido, antes que finde. De rótulo, então, minha chatice torna-se um signo de singularidade. Minha maneira de ser, só pode ser única, exatamente por causar estranhamento aos olhos do outro.
De fato, tornei-me um chato.
E que bom.