Há quase 40 anos servindo filosofia barata sobre assuntos caros.

Dois pulinhos

Tenho um bom amigo, de longa data, que é dono de uma frase espetacular e que está sempre acompanhada de um gesto bastante característico. Como se estendesse uma faixa diante de si, olha para o alto, abre as mãos diante do rosto, junta os polegares e indicadores, e os afasta em um gesto amplo e apoteótico enquanto exclama: – Bar é cultura… Depois repete o gesto bem pequenininho, olhando para baixo e completa: …inútil. Pois se o senhor estiver lendo este texto, senhor Arnaldo, saiba que se bar é cultura, eu sou o próprio Pablo Neruda.

E é justamente em um bar, que eu me encontro nesta tarde morna, com a cadeira e a mesa na calçada. Delicio-me com o recheio dourado de uma ampola bem gelada, enquanto ouço “El Cosechero”, de Mercedes Sosa, uma das minhas intérpretes favoritas. Impávido, observo os passantes que passam. Alguém há de me dizer que a qualidade do passante é passar, e que por isso não preciso dizer que os passantes passam, e de fato, isso é verdade. Há passantes, entretanto, que demoram um pouco mais a passar. Fiquei ali pensando que assim como eu observava os passantes, poderia bem ser verdade que muitas vezes tenha sido observado enquanto passava. Talvez naquele dia em que estivesse apressado, correndo para o trabalho, ou voltando para casa com as sacolas de compras do mercado, ou mesmo passeando languidamente enquanto acendia um cigarro, alguém estivesse me observando. Quem sabe tivesse me achado feio, quem sabe tivesse me achado belo. Estranho, talvez. Ou elegante demais. Desarrumado demais. Afoito demais.

A única coisa que penso jamais ter acontecido, é que alguém tivesse escrito, em qualquer momento, sobre minha qualidade de passante enquanto eu passava. Lembrei de Baudelaire, que escreveu de uma passante: “Não sabes do meu destino, e eu não sei aonde vais”, mas não tenho vocação para poeta, e muito menos para maldito. Ainda assim estou aqui, escrevendo sobre os passantes. Olha aí, senhor Arnaldo, a minha verve literária!

Minha amiga Milena diz que eu escrevo bem. Pois eu me acho o Elon Musk da literatura, já que o Elon Musk não escreve nada, assim como eu. Por outro lado, tão pouco sou o Pablo Neruda dos botecos: seria impensável estar para o alcoolismo como Neruda para a poesia.

Lá vão os carros, que também passam. É sobre isso “El Cosechero”, sobre o movimento da passagem de uma barco que sobe e desce o rio, carregado de algodão, e sobre os sonhos de um bóia-fria, de um dia poder repousar em um cantinho calmo e só seu. Não é pra isso que passamos? Para chegar a repousar um dia?

Desce mais uma aí, camarada.

E a passagem do meu passante, nesse caso, é a própria vida. Mas é claro! A Milena estava mesmo certa: eu escrevo bem. O passante só existe para mim, de quando entra até quando sai do meu campo de visão. Daí o passante passa, como eu passarei, e daí não haverá Baudelaire suburbano que me veja passar. E pensando melhor, essa metáfora é meio clichê. A Milena estava errada: eu não escrevo nada bem. Estou aqui falhando na escrita, como em tantas outras coisas. Que pensará o meu observador ao me ver passar pela vida? Que escreverá de mim o meu Baudelaire antes que eu alcance o meu passamento?

Olha o garoto lá. Atravessou a rua e deu dois pulinhos. Bem no meio na faixa de pedestres.

Pulinhos mesmo, como se estivesse a passear pelo bosque. Como são atrevidos esses passantes!

Eu não lhe dei nenhum direito de dar pulinhos enquanto o observo. O que pensarei eu do meu passante quando este passar definitivamente? Não é justo. Queria lembrar dele com candura, sabe? Não como um cara meio bobo que dá dois pulinhos enquanto atravessa a rua. Mas isso deve ser problema meu. Estou ficando meio velho e também amargo, sabe? Quando eu passar, também ficarei gelado. Amargo e gelado, como esta garrafa de cerveja.

E o cara dos pulinhos, esse meu passante, passou. Mas ficou aqui na minha cabeça. E também nestas palavras. Ele demorará um pouco mais a passar. Se você é homem, tem entre dezessete e vinte e dois anos, estava de jaqueta vermelha e recentemente deu dois pulinhos ao atravessar a rua, esta é minha homenagem para você. Talvez a forma de passar seja bem essa mesmo. Sendo quem somos. Meio bobos ou muito sérios, dançando, cantando ou calados, mas sendo quem somos, para que possamos passar tranquilos

Quanto a mim, bem…

Fecha minha a conta aí, chefia.

(Raphael Nery de Vasconcellos)

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