Há quase 40 anos servindo filosofia barata sobre assuntos caros.

O Estranho Misterioso

Quando um dia ele finalmente surgiu diante de mim, fiquei louco de alegria, mas só por pouco tempo. Tinha vindo para dizer adeus, disse ele, pela última vez. Investigações e incumbências noutros cantos do Universo, disse ele, o manteriam ocupado por um período mais longo do que eu poderia esperar.

— Quer dizer que você está indo embora e não volta nunca mais?

— Sim — disse ele. — Nós dois fomos amigos por bastante tempo e foi agradável, agradável para ambos. Mas agora eu preciso ir, e nós nunca mais nos veremos.

— Nesta vida, Satã. Mas, e na outra? Nós certamente vamos nos encontrar na outra vida, não é? E então, cheio de calma e tranquilidade, ele deu a estranha resposta:

— Não há outra.

Uma sutil influência soprou do seu espírito sobre o meu, trazendo consigo um sentimento vago e indistinto, mas abençoado e esperançoso, de que aquelas incríveis palavras pudessem ser verdadeiras — talvez tivessem de ser verdadeiras.

— Você nunca suspeitou disso, Theodor?

— Não. Como poderia? Mas, se isso for verdade…

— É verdade.

Uma rajada de gratidão ergueu-se em meu peito, mas uma dúvida a deteve antes que pudesse ser expressa em palavras, e eu disse:

— Mas, mas nós vimos aquela vida futura… vimos na realidade, e assim…

— Era só uma visão, não tinha existência real.

Eu mal podia respirar, tamanha era a esperança que lutava dentro de mim.

— Uma visão? uma vi…

— A própria vida é apenas uma visão, um sonho.

Foi eletrizante. Por Deus! Eu tivera esse mesmo pensamento mil vezes nas minhas divagações!

— Nada existe. Tudo é um sonho. Deus, o homem, o mundo, o Sol e a Lua, a imensidão das estrelas, um sonho, tudo um sonho. Coisas que não existem. Nada existe a não ser o espaço vazio… e você!

— Eu?

— E você não é você. Não tem corpo, nem sangue, nem ossos, você é apenas um pensamento.

Eu próprio não tenho existência, sou apenas um sonho, um sonho seu, uma criatura da sua imaginação. Num momento você terá percebido isso e então me banirá das suas visões e eu me dissolverei no nada do qual você me fez… Já estou indo, estou me dissolvendo, estou desaparecendo. Dentro em breve você estará sozinho no espaço sem limites, para peregrinar eternamente em suas solidões ilimitadas, sem amigo ou companheiro, pois você permanecerá um pensamento, o único pensamento que existe, e, por sua própria natureza, inextinguível, indestrutível. Mas eu, seu pobre servo, revelei você a si mesmo e o libertei. Sonhe outros sonhos, e melhores!…

Estranho, estranho que você não tenha suspeitado disso há anos, há séculos, milênios, eras, pois você tem existido, sem companhia, por todas as eternidades. Estranho, na verdade, que você nunca tenha suspeitado que este Universo e seu conteúdo fossem apenas sonhos, visões, ficção! Estranho, porque eles são tão franca e histericamente insanos, como todos os sonhos: um Deus que pudesse fazer bons filhos com tanta facilidade quanto os faz maus, e ainda assim preferisse fazer os maus. Que pudesse tornar feliz cada um deles e, ainda assim, nunca fizesse feliz um só deles. Que os fizesse dar valor à sua vida amarga e, ainda assim, a encurtasse dolorosamente.

Que deu a seus anjos uma imerecida felicidade eterna e, no entanto, exige que seus outros filhos se tornem merecedores dela. Que deu a seus anjos uma vida sem dor e, contudo, amaldiçoou seus outros filhos com amargas tristezas e doenças da mente e do corpo. Um Deus que fala de Justiça, e inventou o Inferno. Fala de Misericórdia, e inventou o Inferno. Fala das Regras de Ouro e do perdão multiplicado por setenta vezes sete, e inventou o Inferno. Fala de Moral para os outros e não tem nenhuma Ele próprio.

Franze o cenho diante dos crimes, mas comete todos os crimes. Que criou o homem sem lhe ser pedido, e depois tenta transferir a responsabilidade dos atos humanos ao homem, em vez de honradamente colocá-la no lugar que lhe cabe: em Si mesmo. E finalmente, com absoluta obtusidade divina, convida esse pobre e abusado escravo a adorá-Lo!… Você percebe, agora, que todas essas coisas somente são possíveis num sonho. Você percebe que elas são puras insanidades pueris, as tolas criações de uma imaginação que não está consciente de suas monstruosidades. Numa palavra, percebe que elas são um sonho e você é o criador desse sonho. Os sinais do sonho estão todos presentes, você deveria tê-los reconhecido mais cedo…

É verdade, o que eu lhe revelei. Não há nenhum Deus, nenhum Universo, nenhuma raça humana, nenhuma vida terrena, nenhum Paraíso, nenhum Inferno. É tudo um sonho, um sonho grotesco e tolo. Nada existe a não ser você. E você nada mais é que um pensamento. Um pensamento andarilho, um pensamento inútil, um pensamento sem lar, peregrinando desesperado pelas vazias eternidades!

Ele desapareceu e me deixou amedrontado. Porque eu sabia, eu percebia, que tudo o que ele tinha dito era verdade.

O Estranho Misterioso, de Mark Twain.

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