Há quase 40 anos servindo filosofia barata sobre assuntos caros.

Nasceu em Belém o Cristo Palestino

“Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor. […] Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor.” (1 João 4:8,12)

Neste dia celebramos o nascimento de Jesus Cristo, o Messias do cristianismo e profeta do judaísmo e do islamismo, filósofo moral para o ocidente, que espalhou sua mensagem de amor a Deus e ao próximo por todo o Império Romano, e que chega até nós através dos evangelhos e dos textos de diversas fés. Há aqueles que tentam se apropriar do Cristo, como se fossem seus donos e representantes. Há os que tentam apropriar-se do seu discurso, e que crêem ter a última e única verdade sobre a sua revelação. Há, entretanto, o Cristo único e universal, que não é propriedade de ninguém, e que é signo de todas as melhores virtudes que um ser humano deve cultivar para estreitar sua relação com a própria natureza espiritual, com o mundo e com os outros seres, preenchendo sua vida de sentido e conferindo um novo significado à própria existência.

Hoje observamos a trajetória de Jesus Cristo, e como o seu ensinamento se extende a toda a humanidade. Observamos a proposta de amor radical do Cristo, e como o apóstolo João descreve este amor divino: não somos capazes de ver a Deus, e por isso nosso amor deve se manifestar na direção do próximo, sem julgamentos, sem preconceitos, compreendendo que o amor de Deus é para todos. É na humanidade do nosso amor que vivenciamos a experiência da divindade, como o próprio Jesus fez: fazendo nascer da cruz a nossa rosa.

“Disse-lhe Natanael: Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? Disse-lhe Filipe: Vem, e vê.” (João 1:46)

Olhamos para o nós e para o mundo ao final deste turbulento ano, e pensamos nos diversos conflitos presentes em nossa sociedade e no mundo: os ricos herdeiros que jamais construíram nada com as próprias mãos, vociferando hipocritamente seu discurso meritocrático contra os trabalhadores pobres, que dia a dia exaurem suas energias em trabalhos brutalizantes e mal remunerados. As elites políticas que convencem os cidadãos a abrir mão dos seus direitos, porque isto será benéfico ao país. Os homens armados e os juízes que acreditam poder matar e encarcerar os pretos e tão pobres e pobres e tão pretos, enquanto protegem seus amigos e interesses, das grandes potências promovendo a guerra em todo o lugar, transformando inocentes em carne para canhão e pervertendo os melhores valores das nações por causa da sua sede de grana. Fomos nós, humanos, que produzimos todo tipo de iniquidade, como a exploração, expropriação e sangue derramado.

E por que isto é importante?

Porque também o Cristo viveu em uma época iníqua. Porque também ele sofreu no seu corpo a violência da opressão. Porque foi um refugiado no Egito, porque foi um trabalhador em Nazaré. Porque foi perseguido em razão do seu discurso emancipador, porque foi preso, torturado e condenado à pena capital. Assim como nos nossos tempos, tantas pessoas têm seus direitos violados em suas terras natais, sendo torturadas, exiladas ou mortas, tendo de arriscar suas vidas em fugas desesperadas através de outras fronteiras, tendo seu corpo abusado, violado por homens armados, sejam de Estados ou de capatazes, com fome e sede de justiça, clamando por salvação, sem que sejam ouvidas. Este Cristo que se celebra hoje se atualiza em cada menino morando sob marquises, em cada menina cuja inocência é maculada, em cada pai que lamenta a morte de sua esposa e filhos em um campo de refugiados, em cada mãe que perde seu bebê ainda não nascido em uma fuga desesperada por abrigo contra as bombas cuspidas do céu, em cada idoso que é deixado para trás enquanto os tanques invadem vilarejos.

Pode vir alguma coisa boa da favela?

Pode vir alguma coisa boa da Baixada Fluminense?

Pode vir alguma coisa boa do Haiti?

Pode vir alguma coisa boa da Ucrânia?

Pode vir alguma coisa boa da Palestina?

Pois vem e vê!

Todos os dias o Cristo nasce: no chão de um barracão, em meio ao lixo de Gramacho, em um campo de refugiados.  Desnutrido, doente, sugando o seio seco de Maria na cela suja do porão de alguma ditadura.

Todos os dias o Cristo morre: de bala, de fome, de sede, doente ou torturado.

O que o Cristo nos lembra, entretanto, este Cristo nascido em Belém, na atual Cisjordânia Palestina, em meio aos animais de um estábulo, refugiado no Egito, trabalhador braçal em Nazaré, perseguido pela sua crença, caluniado por estar em meio aos “pecadores”, torturado pelo Estado, condenado à cruz como maldito, este mesmo Cristo, nos lembra que através do genuíno amor ao próximo, nós podemos mudar não só nossas vidas, mas todo o mundo em redor. E que se foi pelo homem que a maldade penetrou no mundo, também será pelo homem que o amor o restaurará.

Minha mensagem a você neste dia é que não perca a esperança.

Creio profundamente que a prática do amor sem receio, a boa vontade para com o próximo, a solidariedade entre os povos e a defesa da emancipação do ser humano ante todo o autoritarismo são os primeiros passos, e os mais importantes para que possamos construir o paraíso nesta Terra, onde Cristo poderá enfim retornar e estabelecer o Reino de Deus em cada país, cidade, bairro, lar, família, coração e mente.

Hoje em Belém, o Cristo Palestino nasceu.

Portanto, Feliz Natal!

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